domingo, 24 de agosto de 2008

pipoca doce


" a dor é um côco ruim de quebrar (...)"*

Todo domingo havia banda no coreto do jardim, exatamente como na canção. Toda a cidade de Sebastião Coroado cabia na praça do Volteio. As árvores redondas, as calçadas estreitas de pedras miúdas.
As crianças corriam, as bicicletas passavam, os pássaros desconfiavam. A fanfarra vestida de verde e prata enfeitava o ar quente da domingueira. O tocador de trompete olhava para a menina de vestido azul. Os ruídos repetidos da pequena cidade: slow motion de um filme antigo.

'Amôzinho!', ela se virou e os meninos saíram correndo aos gritos. Sua maquiagem triste e carregada constrastava com o dia. O vermelho ressentido de seu vestido, as pulseiras douradas que lamentavam qualquer coisa. Andava assim meio de lado, talvez fosse o peso de sua dor. De qualquer forma era tudo teoria, a verdade era que ela falava pouco, quase nada.
Falavam muitas coisas, que era loucura, solidão, dor de amor, abandono, que ela havia sucumbido. Os tamancos de madeira faziam um barulho seco. O que chamava atenção é que apesar de estar tão entregue ao desengano conservava uma beleza triste. Talvez fossem os grandes olhos amendoados, aquele olhar que lembrava uma cigana dançando em frente à fogueira.
Ela observava quieta a fanfarra tocar, mal se balançava, nem batia palma, apenas olhava. Algumas vezes desaparecia sem que percebessem. Era estranhamente temida e respeitada.
Existem pessoas que são amaldiçoadas pela tristeza e por isso não podem deixar que nenhum ruído saía de sua boca, para que a tristeza não se derrame sobre os outros. Um fardo de poupar o mundo da dor.
Perambulava pelas ruas sem propósito algum, arrastava o tempo em suas pernas.
Nunca pedia nada a ninguém, exceto ao Firmino, que era capoeira e vendia pipoca aos domingos só pra ganhar uns trocados a mais. Ia empurrando o carrinho em direção à pracinha cantando " primeiro Deus, primeiro Deus, depois sou eu, sou eu, sou eu"**.
Pois, já havia virado rito: todo domingo Amôzinho estendia seu saco amarelo a Firmino e apontava para as pipocas carameladas. Ele colocava várias porções , olhando-a fixamente, como que hipnotizado pelos olhos misteriosamente introvertidos. Ela muito séria esperava uma quantidade que a agradasse, e partia.

Aos poucos Firmino foi se entrando tanto nesse código secreto deles que já saía para vender pipoca pensando se teria mudado alguma coisa nos olhos dela. Envolvido nesse contato tão breve. Ele já a reconhecia de longe, os cabelos longos cacheados, aquele balançado soturno.
Um dia, quando não se aguentou mais, e enquanto derramava pipoca dentro do saco olhando para ela, disse:
- Amôzinho, fica comigo. Vem morar comigo.

Ela contraiu os lábios, fechou o saco bruscamente e se seguiu um choro tão profundo que os soluços de Amôzinho assustaram os pombos que comiam as pipocas caídas no chão. Firmino quis segurar na mão dela, mas ela se afastava. Quis dizer coisas bonitas mas o choro de Amôzinho era tão alto que ele não ouvia a própria voz. Ela se embrenhou em meio as pessoas e desapareceu.
Firmino ficou estático, não conseguiu correr atrás dela.

A partir daí e por imaginar que ela iria gostar: acrescentou côco ralado e um leite doce à pipoca e se instalou na praça. Ficava lá encostado no carrinho os 7 dias da semana. Esperando o momento em que Amôzinho apareceria e estenderia a sacola amarela para ele que lhe daria pipoca e lhe cobriria de beijos antes mesmo que ela pudesse fugir.
Acontece que ele esperou e esperou, fez até um tamburete de madeira para se sentar junto ao carrinho e ela nunca mais apareceu. Não conseguia mais tirar da lembrança a figura daquela mulher que lhe pedia tão pouco. Talvez ele tivesse lhe pedido demais.
Sentado no seu banco ele cantava baixinho:

"Ó morena da cor de canela,
Cor da minha perdição,
Se eu soubesse do perigo,
Eu não lhe queria não,
Fiquei esperando o vento,
Você me deu vendaval,
Eu pedi chuva miúda,
Você se fez temporal,
Quando eu esperei silêncio,
Você se fez berimbau ..."**

Dizem que foi o soluço de Amôzinho que ele nunca deveria ter ouvido.
Ela carregava o fardo de poupar o mundo da dor.

* ralador, de roque ferreira
** cantigas de capoeira

flornoasfalto

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Latitude Noite

Começa assim na penumbra mesmo, olhares curiosos que brilham na escuridão.
É noite, de todos os lados partem sussurros, fantasmas que aparecem e somem sem assustar ninguém. Ao invés de pavor, trazem abraços efusivos, despertam lembranças, aguçam sentidos, permitem-nos sermos nós mesmos através de um infinito que pode acabar ali ou lá: simples assim.
Nada é a toa, não são náufragos que pararam ao acaso aqui, têm propósito definido que cabem muito bem numa justa indefinição. Assim começa pra não ter fim isso que é ao mesmo tempo amor e ao mesmo tempo todo o resto o tempo todo. Olhe dentro de si, haverá uma bússola, vê pra onde aponta... Norte? Não: Noite.

tuiu